RETROSPECTIVA: Raul Seixas e Cyro del Nero numa parceria que criou talvez o primeiro clipe brasileiro: Gita
No dia 31 de julho faleceu Cyro Del Nero responsável pelo clipe de Gita, do incrível maluco beleza Raul Seixas. Gita é considerado o primeiro videoclipe do Brasil e o Clipestesia não poderia deixar de homenagear o responsável por abrir as portas para o gênero no país.
Caroline Pessanha (carolinepessanha@clipestesia.com.br)
Cyro Del Nero era cenógrafo e ex-diretor de arte responsável por criar aberturas de inúmeras novelas na TV Globo – já tinha passado pela Record e Excelsior. Mas o talento e a criatividade de Cyro deixaram marcas no teatro, em óperas, na música e principalmente na TV. Responsável por criar aberturas de programas e novelas, vinhetas e cenários para quadros musicais do Fantástico, foi em uma dessas criações para a revista eletrônica que Cyro descobriu ser um grande produtor de videoclipes.
Dentre os números musicais que Del Nero produziu em 1974, Gita, um clássico do rock brasileiro na voz do irreverente e polêmico Raul Seixas, é o mais marcante.
Graças à inovação, o cenógrafo disputa com Nilton Travesso o título de primeiro videoclipe brasileiro. Pois em 1975, Travesso dirigiu também para o Fantástico, o clipe de América do Sul, de Ney Matogrosso. Travesso defende que esse foi o primeiro videoclipe nacional por não ter sido gravado em estúdio e por utilizar o recurso da dublagem.
Del Nyro descreve como tudo aconteceu:
“Foi a Direção do Fantástico – programa com o qual eu já colaborava como seu Diretor de Arte nos anos 70 – quem colocava em minhas mãos artistas para que eu criasse números musicais e a partir da minha criação do Gita com Raul Seixas, não mais “números musicais”, mas o que ainda não tinha nome em nosso vocabulário: o videoclipe.”
“Paulo Coelho, o letrista do Gita, sabe disso – e me disse há pouco tempo, cumprimentando-me pelo ineditismo e pelo grande sucesso do Gita e da estréia de um gênero no Brasil – que o videoclipe criado por mim, premiou e elevou o talento da dupla que ele fazia com Raul.”
Do dia para a noite nasceu o videoclipe no Brasil e o uso de uma linguagem visual até então inexistente. Gita, criado em 1974, serviu de modelo para todos os outros clipes.
Então vamos ao clipe
Raul Seixas era poeta, místico, filósofo e um cara para lá de polêmico. Foi em parceria com Paulo Coelho que ele escreveu, além de Gita, sucessos como Maluco Beleza e outros. Recém chegado do exílio, a letra de Gita é uma crítica ao governo militar e foi uma das trilhas sonoras do movimento conhecido como Sociedade Alternativa.
Raul Seixas e o Paulo Coelho se inspiraram em acontecimentos da cultura indiana para escrever a música que trata de um diálogo entre Krishna e Arjuna no texto indiano Bhagavad Gita (A Sublime Canção). Um diálogo ocorrido antes da Batalha de Kurukshetra, em que o homem trava para derrotar as ilusões criadas pela sua mente e conquistar o Trono da Divindade que habita dentro dele. Trono usurpado pelas imagens vindas de Maya – o mundo das ilusões.
A música ainda tem referências da Cabala, e o clipe não fica isento destas referências, ele é uma mandala musical. Mandalas são formas circulares que, na arte oriental, convergem para um centro que representa o centro de nós mesmos.
O clipe é permeado por diversas obras de arte. Raul e Del Nyro fizeram uma brincadeira, chegando a interagir com algumas obras. Os trabalhos de Nyro se destacaram justamente por explorar em suas criações obras de arte de artistas como Miró, Dali, Matisse e outros, inclusive, uma das primeiras imagens mostradas no clipe é a capa do livro Estranha Realidade, de Carlos Castaneda.
E quando ele se embrenhou pelo mundo do videoclipe não foi diferente. Reparem a capa do livro logo nas primeiras imagens.
No vídeo Raul canta como se estivesse falando com a gente. São muitos os que assistem ao clipe e escutam a canção e começam a viajar em sua letra, nas imagens e em sua sonoridade. Apesar de ser um trabalho muito simples, a ideia de permeá-lo com obras de arte que traduzem muitas vezes a letra deu a possibilidade real de interação entre a obra, a música e o cantor.
O clipe é atemporal e marcou época. Até hoje ele gera muito polêmica aos que assistem. Uns afirmam que o clipe é cheio de mensagens subliminares, outros que o clipe é apenas uma mensagem de amor baseada em ensinamentos cabalísticos, indianos e com pitadas de meditação.
O álbum Gita levou Raul ao sucesso. O disco vendeu 600 mil cópias. Raul posou para a capa vestido de guerrilheiro com uma guitarra vermelha, uma provocação ao regime militar que governava na época.
Considerado pai do rock brasileiro, Raul morreu vítima de uma pancreatite provocada pelo alto consumo de álcool.








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