Brazucas: A macacada reunida em “Ex-Quadrilha da Fumaça”, clássico do Planet Hemp
Guilherme Bryan* Especial para o Clipestesia
A utilização de animais nos videoclipes brasileiros é mais comum do que se imagina. Se, na animação “Túnel do Tempo”, Frejat procurou um cãozinho de estimação; e, em “Isso”, Paulo Miklos tentou reconquistar a elefanta Bambi; no ano 2000, vários macacos assumiram os mais diferentes papeis, usando vários figurinos diferentes, em “Ex-Quadrilha da Fumaça”, estrelado pelo Planet Hemp e dirigido por Kátia Lund, Raul Machado e Eduardo Kurt. Pode não ter sido a produção mais conhecida da banda carioca, que misturava rock com rap, mas é uma das mais criativas.
“Ex-Quadrilha da Fumaça” faz parte do terceiro e último álbum de estúdio do Planet Hemp, “A Invasão do Sagaz Homem Fumaça”. Tanto o título da canção, como o do álbum fazem referência ao fato de a banda ser acusada de apologia ao consumo de maconha. “Adivinha doutor, quem tá de volta na praça / Planet Hemp / Esquadrilha da fumaça / Fumaça que sai de um fogo que nunca vai apagar / Eu tô de volta e ninguém pode me parar”, canta o vocalista Marcelo D2.
O mote do videoclipe é o trocadilho existente no título da canção, que mistura uma ex-quadrilha da fumaça, como se fosse uma turma de maconheiros, com a Esquadrilha da Fumaça, nome popular do Esquadrão de Demonstração Aérea, um grupo de pilotos e mecânicos da Força Aérea Brasileira, que fazem demonstrações de acrobacias aéreas pelo Brasil e pelo mundo. Por isso, a primeira e a última imagem são de vários aviões sobrevoando uma cidade.
Uma das primeiras imagens do videoclipe é um macaco pilotando um avião, com uma imensa peruca black power, como Marcelo D2 gostava de usar na época. Ele é observado de binóculos por um policial, vivido por outro macaco, que solta uma bomba em direção à aeronave, que pega fogo. A saída, então, é pular de pára-quedas e aproveitar para falar ao telefone com outro macaco, rastafári, que seria integrante da tal quadrilha e dispara pelas ruas pilotando uma bicicleta, como se fugisse da polícia. Essa cena está totalmente de acordo com os versos: “‘Sujou, os hômi!’. Disfarça, disfarça / Adivinha doutor / Quem tá de volta na praça / Planet Hemp / Intoxicados pela ignorância reinante os homens fumaça”.
Esses versos estão relacionados à prisão dos integrantes do Planet Hemp durante um show em Brasília. A razão: suposta apologia às drogas. Foi o suficiente para que muitos políticos, artistas e defensores dos direitos sociais, favoráveis ao movimento pró-descriminalização dos consumidores de drogas leves, fizessem várias manifestações contra aquela arbitrariedade. Com isso, a banda conquistou ainda mais popularidade. “Planet Hemp de novo / Soltando a fumaça no ar / Sou sangue-bom / Mas duro de derramar / Então rapá? / O que que há? / Planet Hemp na área / Quem disse que ia acabar?”.
No final, D2 acrescenta, brincando com a canção “Jorge Maravilha”, de Chico Buarque: “Ninguém vai me tirar o trono / Eu vou te tirar o sono / Com o som que você nunca vai imitar / Som é da fumaça que deixa quando passa a quadrilha / Você não gosta de mim / mas sim a sua filha / Eu boto pilha / E o jogo segue a trilha / … / Querem me calar, mas olha eu aqui de novo”. Parecia que os tempos da época de chumbo do regime militar estavam de volta, principalmente no que se referia à censura.
Para acompanhar esses versos, chama atenção os vários desenhos que parecem feitos de dobradura, imitam uma cidade e servem de cenário para os macacos, que se organizam, falando em aparelhos de telefone antigos – quando a tela é divida em várias partes verticais –, partem em disparada e, no final, aparecem tocando, cantando e dançando numa garagem grafitada, assumindo o lugar do Planet Hemp. Preste atenção nos arcos da Lapa, por onde um skatista passa correndo, ao ser perseguido por dois policiais com cassetetes na mão. A personagem de óculos, chapéu de palha na cabeça, possui cabelo bem comprido e que masca chicletes é uma das mais curiosas, assim como o DJ de boné preto, e parece ser espécie de líder.
A mistura de desenho com imagens reais é um dos aspectos mais interessantes da produção, principalmente em função do aspecto dramático provocado pela forte interpretação dos macacos. Também são utilizadas várias referências da banda, como skate, grafite, DJ, b-boys (dançarinos de rap) e as bandas Dead Kennedys, cujo nome aparece pichado num banheiro, e Rolling Stones, mencionado no pôster com a imensa língua dependurado numa casa. Esse universo, que constitui o hip hop norte-americano, retornará anos depois em “Loadeando”, da carreira solo de Marcelo D2 e que marca o encontro dele com o filho Stephan. Mas essa é outra história para a seção Brazucas.
*Brazucas é uma seção quinzenal, no formato seriado, a respeito da história da produção brasileira de videoclipes e é escrita por Guilherme Bryan, 36 anos, jornalista, doutor em Meios e Processos Audiovisuais pela ECA-USP, colunista de videoclipes e música do Yahoo!Brasil, responsável pela cobertura cultural do portal Rede Brasil Atual, colaborador fixo da Revista da Livraria Cultura e professor de Rádio e TV da Universidade Bandeirantes (Uniban). Autor do livro “Quem tem um sonho não dança – cultura jovem brasileira nos anos 80?.


Loading ...
Comente!