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Prada e Antony & The Johnsons em uma mistura videoclíptica totalmente sinestésica

31 agosto 2010 979 views Comente primeiro

O Moda-Clipe voltou no tempo no mundo da moda e trouxe para o Moda em Clipes de Agosto um vídeo bem diferente e inovador. Uma colaboração do Antony & The Johnsons para um desfile da Prada, que resultou em um videoclipe: The Great White Ocean carrega uma aura artística inserida em uma coleção de moda.

Marina Espogeiro (marinaespogeiro@gmail.com) e Priscila Ramos (priscila_pfr@yahoo.com.br)

Aliás, antes de começar: seria isso realmente um videoclipe? A banda o usa enquanto tal para a divulgação de sua música, em seu site oficial etc., mas é interessante levar algumas coisas em consideração: o vídeo foi feito especificamente para a coleção de outono/inverno de 2008 da Prada e Antony and The Johnsons foi a banda convidada para compor a música exclusivamente para a ocasião. Além disso, o vídeo tem um nome próprio, diferente do nome da música.

Sinestesia total entre a música e as imagens, que se transfiguram e se recompõem num jogo de silhuetas e sombras pela arquitetura de uma cidade surreal, em uma atmosfera completamente noir*. A união moda e música se completa com a produção (letra e melodia) de The Great White Ocean, convergindo e ampliando as instâncias que relacionam música e imagem.

O vídeo traz um avatar (mais especificamente Linda Evangelista) vestindo rendas e mais rendas (Prada, é claro), como foi a coleção de inverno da marca de 2008, circulando em meio a um universo surrelista, inspirado por obras de Dalí, Buñuel, Duchamp e Escher, em uma atmosfera que mescla drama italiano e fantasia.

Fala, assim, da história de uma mulher e sua sombra, que vive no seu subconsciente, mas ganha força e acaba se tornando mais real que sua ‘proprietária’. É aí que entra a arte de Miuccia Prada em misturar modernidades, sem perder a alma nem a capacidade de fazer sonhar, imaginar, fluir.

Uma mistura de filmes noir, surrealismo e futurismo numa admirável forma cinemática. Referências como as escadas de Escher e os pátios romanos de Dalí incrivelmente complementam a austeridade do guipure** Prada, renda transparecendo até na sombra.

O diretor James Lira explica que “a sombra é mais viva e expressiva que a mulher. Ela é o subconsciente, o sonho, a alma e é sua jornada de auto-descobrimento com sensações da cidade que confrontam a ela e a nós”.

A sensação que temos ao assistir o vídeo, unindo letra e melodia da música escolhida, com as imagens da animação, nos transmite exatamente essa sensação de leveza, que acredito ser o foco da produção: leveza trazida pela renda, pela sombra, pelas cores neutras, pelo movimento da personagem. Leva-nos a um mundo imaginário, como se estivéssemos dentro de um sonho surreal, impraticável no plano prático.

Já deu para ter uma boa idéia do que é o resultado? Então confira o famoso Fallen Shadows:

Observem a letra da música e notem as semelhanças com as imagens; vejam também o movimento da personagem junto à melodia.

Para entender toda a temática do vídeo de fato, é preciso perceber o que apareceu na coleção em si, pois foi em cima dela que surgiram essas imagens, a animação, inspirações artísticas e a música.

Com um recato para lá de sensual, sapatos de desenhos impecáveis, formas orgânicas, exuberantes, a coleção privilegiou o minimalismo e a simplicidade entre as suas referências. “O inverno rendado” pode-se assim dizer. A cartela de cores incluiu o laranja, o azul claro, tons de pele e o marron.

Em alta apareceram: vestidos pretos à altura dos joelhos, ultra-femininos, mas com um quê de religioso. Mas em se tratando de diferencial, a coleção investiu nas rendas, usadas em saias, vestidos e em uma calça. As transparências estiveram por toda a coleção, seja nas rendas que mostravam as peças por baixo e o underwear, ou nos vestidos mais fluidos.

Embora haja a transparência da renda, a marca passa uma sensualidade bastante contida, sem apelos. “Eu queria fazer minimal, algo que fosse feminino e forte, mas não tão sexy no final, declarou Miuccia. O mesmo pode se falar quanto à beleza das modelos: beleza clássica, rosto limpo e cabelos presos, bem ao estilo Prada. Quanto aos acessórios sobressaíram-se os escarpins nos pés das modelos, de saltos esculpidos, alguns bem angulados, e também botas de cano curto acompanhadas por uma continuação destacada, indo até os joelhos.

Agora nos diga: em sua opinião isso é um videoclipe, um curta ou uma videoarte? Ou alguma outra definição? Por quê?

* Os filmes “Noirs” foram historicamente filmados em preto-e-branco e eram caracterizados pelo alto contraste, com raízes na cinematografia característica do expressionismo alemão. É derivado dos romances de suspense da época da Grande Depressão (muitos filmes “noir” foram adaptados de romances policiais do período), e do estilo visual dos filmes de terror da década de 1930.

** Guipure: É um tipo de renda feita com fios finos que deixam o motivo bordado em destaque. É muito usado em roupas de noivas e em peitilhos de blusas femininas. Normalmente é feita com linho, seda ou algodão.

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