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Tudo que você sempre quis saber sobre videoclipe

6 agosto 2010 869 views Comente primeiro

O videomaker Ricardo Laganaro é um apaixonado por videoclipes. Mais do que isso: sua paixão o levou para a graduação de Cinema e muito de seu tempo já foi dedicado à direção do produto que mais gosta. É dele a direção de vários vídeos do NX Zero e do Hateen, por exemplo, além do DVD “Invisível DJ’’ (2007) do Ira!, ao lado de Plínio Higuti. Sua veia videoclíptica faz com que seja um ótimo (e ácido!) crítico e pensador do videoclipe e, nesta entrevista exclusiva, ele fala do mercado de clipes nacionais, de como a ideia de vários clipes surgiu, do papel da MTV ontem e hoje e do mega esforço que profissionais da área devem fazer para se destacar no mercado de clipes nacionais.

Bianca Caetano (bianca@clipestesia.com.br)

Clipestesia: O que é preciso para dirigir um bom videoclipe?

Ricardo Laganaro: Olha … Difícil dizer uma coisa só. Cada clipe tem uma história diferente, contexto diferente,  verba e prazo diferentes. De qualquer forma, antes de tudo o diretor tem que ter muita vontade de fazê-lo. Sempre brinco que se você não ouviu a música menos que 100 vezes, não está levando o trabalho a sério. Quem faz o processo no “automático” ou só na empolgação, dificilmente fará algo que se destacará. Tem que pensar muito em cada etapa, pra tentar tirar o máximo das condições que você terá pra realizar cada trabalho.

Ricardo Laganaro em foto de arquivo pessoal

Clipestesia: Você dirigiu clipes para o NX Zero, como Além de Mim (2006) e Cedo ou tarde (2008). Como eles foram concebidos? Qual foi a participação da banda e da gravadora no resultado final?

Ricardo: Esses clipes podem dar um bom exemplo do que disse acima. Vamos lá:

No Além de Mim, eu tive exatos 12 dias corridos do momento que recebi a ligação da Arsenal (gravadora) até o dia que entregamos a fita pra MTV. Tinha que ser essa loucura para o clipe tentar concorrer ao VMB. Eu não conhecia a banda, a música ainda estava sendo gravada (usamos por quase todo processo uma demo e, depois, uma versão ainda não mixada pela gravadora), e tínhamos que começar a produção antes mesmo de aprovar a ideia, senão o clipe não entraria no VMB e nada valeria a pena.

Tive uma primeira reunião pra conhecer a banda e o Rick Bonadio (presidente da gravadora e produtor musical do NX) no próprio estúdio que eles estavam gravando o disco. Lá pedi todo material de show que eles tinham gravado, pra ver como eles agiam no palco. Os moleques tinham uma bela presença, então voltei convencido no dia seguinte que só garantiria a qualidade do clipe se fizéssemos apenas um “master shot” deles tocando. Nada além disso, pois não teríamos tempo de pensar e produzir algo de nível, nas condições que tínhamos. Por sorte, isso era o que a banda e a gravadora também queriam. Um cartão de visita. Não precisavam aparecer atuando ou em takes bonitinhos, quanto mais “pegada” de show o clipe tivesse melhor.

Daí por diante foi correr muito pra produzir, filmar e editar. Quando a gravadora viu o clipe, apenas pediram algumas alterações de montagem e tratamento de cor. Tudo pra deixar o clipe mais “rápido” e cru; e foi isso que ficou no resultado final. O esforço valeu a pena porque fomos indicados na categoria Melhor Clipe de Banda Revelação, mas perdemos para o Hateen com o clipe Quem Já Perdeu Um Sonho Aqui? (curiosidade: da mesma gravadora, também dirigido por mim! rsrs)

No Cedo ou Tarde, a coisa foi bem mais tranquila. O NX já estava estabelecido como uma banda de sucesso. Tinham acabado de fazer um clipe que valorizava a atuação e comédia dos integrantes (Pela Última Vez) que ficou bem bacana, deu super certo e até levou o VMB. E aí, com o lançamento do novo disco eles me chamaram pra fazer uma espécie de “reapresentação” da banda.

Nesse trabalho já tivemos um pouco mais de grana, mais prazo e mais papos. rsrs . Os meninos, inicialmente queriam fazer o clipe tocando numa praia. Mas os violinos da música não saíam da minha cabeça e não tinha dúvidas que colocá-los tocando junto com uma orquestra, num teatro de ópera, num tom mais sóbrio e sério, daria uma quebrada em tudo que os fãs já tinham visto da banda e poderia ficar bem interessante. É uma coisa que várias bandas gringas (que crescemos ouvindo e admirando) já fizeram, e não me lembrava de ter visto uma banda brasileira fazendo algo do tipo, de maneira tão trabalhada como estávamos pensando. Eles compraram a idéia na hora e apenas pediram pra eu pensar em acrescentar umas cenas mais poéticas, que simbolizassem a perda. Vale lembrar que a música foi escrita pelo Gee (guitarrista da banda), numa homenagem póstuma ao pai que faleceu quando ele era bem pequeno. Aproveitando esse tom mais poético também pensei em colocar umas imagens com cara de “making of”, sempre em câmera lenta, de um modo que também ajudasse a mostrar a banda duma maneira que normalmente os fãs não veem. Essa mistura toda acabou funcionando.

Neste video, a gravadora foi parceira total. Já confiava bastante no meu trabalho e também no gosto do pessoal da banda. Praticamente não alteramos a montagem que foi apresentada pela primeira vez e o clipe beira os 12 milhões de views no Youtube, é o clipe mais visto da banda e um dos videos de música mais vistos no Brasil . Tenho muito orgulho do resultado final e dessas marcas.

Clipestesia: Daqui pra frente, também do NX Zero, não é apenas videoclipe mas foi pensado no formato de uma mini-série para a web a partir de imagens captadas através de um celular. Uma ideia inovadora dentro do mercado audiovisual brasileiro. Como surgiu esse projeto e como você acha que os fãs, a banda, a gravadora e o mercado receberam a proposta?

O Daqui Pra Frente foi uma viagem …rsrs Há muito tempo eu já queria fazer um “road-clipe” (algo bem diferente de tudo que já tinha feito). Aí vi o filme Into the Wild e decidi que ia fazer um clipe assim de qualquer jeito! Comecei a buscar idéias que justificassem essa viagem toda e aí acabou surgindo a criação da mini-série. Já que ía contar uma história “grande”, bem maior do que de costume, achei legal assumir que o clipe viraria apenas um trailer pra essa história, que seria explicada de verdade na mini-série. Tudo isso aconteceu ainda sem banda e sem música. Era apenas uma piração minha. Quando finalmente fechei a história e o formato, levei pra Arsenal e mostrei para os amigos. Eles piraram e aí começamos a procurar uma música do NX que tivesse a ver com a idéia.

Na época, todo mundo se empolgou bastante com a possibilidade de estar criando algo realmente diferente. Na primeira reunião que tive com os meninos da banda, não percebi neles, em nenhum momento, medo ou receio de estar criando algo que nunca tinha sido testado por aqui. Todo mundo curtiu e isso deu muita força pra tocarmos o projeto. Fechei então todos os roteiros, e a coisa toda ficou assim: teríamos o clipe com a Júlia (o nome da protagonista) e mais 16 episódios gravados em celular (os primeiro 8 explicariam as situações que o clipe já mostrava, os próximos 8 mostrariam o que acontecia com ela depois do fim “misterioso” do clipe). Ou seja, o clipe virou um produto intermediário. Sozinho, praticamente não fazia sentido. A graça estaria em vê-lo na TV  e depois acompanhar a mini-série que ia dando um sentido maior pra tudo que já estava insinuado lá, até o desfecho final.

O resultado? Deu tudo errado! rsrs

Clipestesia: Deu tudo errado com o videoclipe???

Ricardo: A gravadora topou, a banda topou, eu tinha a ideia muito clara na cabeça. Os videos foram gravados, a história foi contada e até quando vimos o resultado final, a sensação foi de euforia. Todo mundo achava que ficou bacana (dentro dos recursos que tínhamos) e que ia dar certo. Porém, pecamos na distribuição.

Na época, eu acreditava piamente que com a exposição do NX (já era a maior banda jovem do Brasil), e sendo um clipe com o final “aberto”, os fãs iriam sair pesquisando sobre uma possível continuação ou algo do tipo. Porém, negociações entre a gravadora e a MTV fizeram com que o primeiro capítulo da série só entrasse no ar dois meses depois da veiculação do clipe na TV. E pra piorar, apenas dentro do site MTV Overdrive, precisando dar uns 4 cliques pra encontrar os capítulos…  Ou seja, por quase 2 meses o público viu apenas um clipe no TV  ”sem pé nem cabeça”, e sem nenhuma ação que explicasse que era apenas um trailer, uma prévia, de uma história maior que viria depois. Por conta disso, a maioria do público detonou o clipe (com toda razão). Mesmo quem começou a acompanhar a série, depois dos 2 meses, não sabia quantos capítulos seriam, até onde a coisa iria, e qual a periodicidade dos episódios. Nada ajudava as pessoas a se interessarem pela história como um todo. Hoje é fácil perceber que tínhamos que ter criado um site só do projeto e divulgar isso ao máximo, até antes do clipe ser lançado. A história por si só não ia fazer as pessoas entenderem a proposta toda, e assumo bastante a culpa nisso. Não briguei o suficiente para que tivéssemos essa explicação. Me empolguei com a história que estava contando e achei que o resto ia funcionar. Na prática, foi um avião carregado tentando decolar com o freio de mão puxado. Só podia resultar numa coisa: CABUM!!

Nota do editor: a versão deste videoclipe disponibilizada na internet pela gravadora da banda não tem a parte final do trabalho. Não há nele o final diferenciado sobre o qual Ricardo Laganaro se refere na entrevista

Clipestesia: Você acha então que a ideia do clipe de Daqui pra Frente não deu certo apenas por erro de divulgação? Será que não foi empolgação demais com uma proposta tão nova no Brasil?

Ricardo: Nessa época (e ainda sofremos isso) as gravadoras já estavam querendo gastar cada vez menos, então pensei em uma forma de trazer as grandes empresas pra patrocinar a produção de clipes. Nesse caso, achei que se colocasse um celular como “personagem” interagindo com a protagonista por toda viagem, isso talvez gerasse o interesse de um fabricante de celulares pra bancar a coisa toda. A idéia era ser o embrião, uma luz (quem sabe…), de um novo formato entre banda, gravadora e patrocinadores. Só que infelizmente no Brasil as empresa não compram idéias. Compram apenas produtos prontos, testados e aprovados. Assim, não conseguimos vender o projeto e tivemos que produzir tudo, com a verba que teríamos apenas para um clipe tradicional. Óbvio que o resultado ficou aquém do que poderia ter sido. É uma pena. Se nos espelharmos nos gringos (mais uma vez), sabemos que lá fora eles fazem muito disso. Os diretores de marketing americanos já entenderam a força que um videoclipe e os grandes artistas exercem no seus públicos, então recheiam os clipes de produtos que até podem ajudar a contar uma história (se forem bem inseridos nos roteiros). Aqui no Brasil, a gente consegue uma permuta pra não ser obrigado a pagar pelo produto, e no máximo, um ticket e o dinheiro do busão! rsrs …

De qualquer forma, a proposta saiu. Acho válido. Não dá pra se tentar algo novo, só acertando. Valeu ter feito o projeto, pela criação da história, pelo ineditismo, pela dedicação e parceria de todos os envolvidos (equipe de produção, atores, banda etc.) e principalmente pelo prazer de rodar uma história como a da Julia. Pena que isso não vingou pro público em geral…

Ricardo Laganaro durante as gravações do clipe Daqui pra Frente (arquivo pessoal)

Clipestesia: A MTV é um dos legitimadores do formato e da linguagem de videoclipe como a conhecemos. Mas em 2006 a MTV Brasil decidiu diminuir o tempo destinado a exibição de videoclipes em sua grade de programação. De que forma isso afetou o mercado brasileiro de videoclipes?

Ricardo: Foi uma estocada no peito. Senti isso mais na pele do que ninguém. De um mês para o outro, a média dos orçamentos de clipes foram reduzidos em mais de 50%. Difícil imaginar um empresário de gravadora continuar investindo em clipes, ouvindo do diretor geral do único e maior canal de massa especializado no formato que o clipe na TV era passado. E o golpe de misericórdia foi acabar com todas as categorias de clipe no VMB. Pra todo mercado de cinema, o VMB era o único lugar pra se divulgar de verdade, com visibilidade e credibilidade, seu trabalho como profissional. Praticamente todo mundo da área, topava fazer um clipe “de graça”, e dava o melhor de si, porque sabia que em agosto ou setembro ia ter uma premiação que ia passar para o Brasil todo, falando nomes e mostrando os melhores trabalhos (praticamente) autorais de diretores, diretores de fotografia, diretores de arte, editores etc. etc. Se o trabalho ficasse bom mesmo, a recompensa viria. Muitos ótimos diretores se lançaram no mercado assim, no auge dos clipes na MTV BR.

Clipestesia: Mas você não acha que a diminuição de videoclipes na grade televisiva é uma tendência não apenas da MTV Brasil, mas de todos os canais da emissora, incluindo a norte-americana?

Ricardo: Se tomarmos como exemplo a matriz americana, eles nunca deixaram de prestigiar o formato, mesmo na programação principal. O “Top” sempre continuou. Documentários e making-ofs super bem produzidos rolam por lá. Além disso, desde que reduziram os clipes da programação principal, eles criaram a MTV 2 (que só passa clipes o tempo todo) e depois veio a VH1, que é um canal que homenageia não só os clipes como toda “cultura” ao redor dele, com as histórias das produções, bandas que só foram famosas por causa de um clipe, os grandes clássicos  etc. etc… Ou seja, mesmo que os negócios peçam outros tipos de programa, eles sabem que a espinha dorsal de um canal chamado MusicTelevision, é o videoclipe. A minha grande bronca da MTV daqui nem é a diminuição da carga horária só de clipes, mas o total desprestígio do formato que os fez serem o que são hoje. E o pior, de forma leviana, porque eles mesmos tiveram que voltar atrás em algumas dessas decisões.

Clipestesia: E qual a situação do videoclipe atualmente no Brasil?

Ricardo: Atualmente acho que a coisa se divide. Falando nas bandas grandes, o tal “mainstream”, as coisas só pioram. Como “indústria” (que quase existiu nos anos 90 e começo dos anos 2000) acho que o mercado está numa fase de “coma”. Cada vez menos verba e menos prestígio para o formato nos meios tradicionais, o que torna ainda menor o investimento. Muitas bandas extraem clipes de gravações dos shows (fica muito mais barato) e pronto. Tá feito o clipe. Triste…

Porém, no mercado independente, temos a tecnologia a nosso favor, com câmeras incríveis como a RED e a 5D e ilhas de edições portáteis em qualquer notebook, que permitem que se façam trabalhos lindos, com muito menos grana do que se fazia antes. Então, tem muita coisa bacana aparecendo por aí. Tudo isso por conta de gente mais nova, querendo mostrar trabalho, com muito talento, “sangue nos olhos” e que vão produzindo clipes totalmente na guerrilha, com resultados cada vez mais interessantes.

Clipestesia: Hoje em dia se fala em uma retomada dos videoclipes nacionais. Você concorda?

Ricardo: Acho que a retomada é mais por conta desse mercado indie que citei acima, que conta muito com a web como plataforma de veiculação. Não sei (mesmo!!) o que vai acontecer com o tal “mercadão”, e como as grandes bandas no Brasil vão lidar com o videoclipe nos próximos anos.

Clipestesia: É possível viver apenas dirigindo videoclipes no Brasil?

Ricardo: Acho MUITO difícil. Mesmo quando se tinha mais grana, você acabava gastando todo orçamento que vinha e se bobear mais um pouco pra conseguir um resultado que se destacava. Já ouvi falar de muitos clipes que os próprios artistas completavam a grana que faltava pra saírem como o diretor queria. E posso falar por experiência própria (além de outros amigos) que já pus dinheiro do bolso pra não abrir mão de algo que achava essencial para o clipe funcionar. Clipe sempre foi vocação no Brasil, nunca um meio de se ganhar dinheiro.

Clipestesia: Por último, você tem algum diretor de videoclipes que admire? Ou algum clipe que você adore e que gostaria de ter feito?

Ricardo: Muitos! Fui estudar cinema por causa de videoclipe. Sempre sonhei em dirigir um clipe. Apesar de achar o Michel Gondry e o Spike Jonze absolutamente geniais, acho que os diretores que mais admiro são o Jonathan Glazer e o Mark Romanek. O clipe que eu queria ter feito? Rabbit in Your Headlights by UNKLE ft. Thom Yorke (do Glazer). Além desse, tem mais uns outros 457 clipes…

Pra terminar, vale também citar todos diretores brasileiros dos 90 e começo dos anos 2000 que me influenciaram quando eu ainda era um adolescente MTVmaníaco : Andruccha Waddington, Oscar Rodrigues Alves, Maurício Eça, Alex Miranda, Johnny Araújo, Jarbas Agnelli, Christiano Metri e todos dessa geração. Foram esses caras que fizeram a minha geração acreditar que poderíamos fazer clipes bons aqui no Brasil. Devo muito a todos eles.

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