BRAZUCAS: Marina é gata todo dia!

Guilherme Bryan, especial para o Clipestesia*
Quando Marina Lima lançou o primeiro álbum, “Simples Como Fogo”, em 1979, com os cabelos encaracolados e uma pose mais roqueira, ela provocou estranheza num meio em que boa parte das cantoras interpretava lamúrias românticas e dores-de-cotovelo. Um ótimo exemplo são os versos “Eu sou uma gata / E não gosto de água fria / Pega logo no meu pelo / Seu carinho me arrepia”, da canção “Gata Todo Dia”, composta por ela, Léo Jaime e Tavinho Paes, e incluída no álbum “Certos Acordes”, de 1981. No ano anterior, Marina já chamara atenção ao interpretar justamente a canção “O Gato”, do especial infantil “A Arca de Noé”, criado por Vinicius de Moraes.
Esses versos extremamente sensuais passaram a tocar bastante nas rádios de todo o país, tornando a voz de Marina bastante conhecida, e renderam um videoclipe exibido pelo “Fantástico”, em janeiro de 1982. A produção, bastante simples, mostra a cantora interpretando a canção e contracenando com um gato malhado, numa casa de número 379, localizada numa área verde praticamente inabitada.
A câmera faz uma panorâmica e se aproxima de uma casa, onde aparece Marina Lima de calça branca e camiseta regata cor-de-rosa brilhante, tentando tocar num gato em cima do telhado. Tudo é mostrado de longe, com a voz do tradicional locutor do “Fantástico” anunciando o novo sucesso da cantora. É interessante como essas imagens são bem amadoras. Hoje elas poderiam ser facilmente confundidas com as pertencentes aos vídeos caseiros enviados pelos concorrentes a uma vaga do “Big Brother Brasil”.
O gato dá um salto mortal em câmera lenta e, mudando de cenário, Marina aparece molhando o dedo numa banheira de espuma para combinar com os versos “Não quero água / Tomo banho é de lambida”. A artista é mostrada, então, através do vidro da sala e caminhando pelos diferentes cômodos da casa. A literalidade se repete no instante em que Marina se joga na cama e abraça o travesseiro, cantando “Não faço nada / E ainda morro de preguiça / Tenho sono o dia inteiro / Madrugada é que me atiça”.
Hoje esse videoclipe pode soar bastante datado, com ares de ensaio para revistas de fofoca, misturado com vídeos institucionais de motel. Mas ele é um interessante representante de uma época em que era importante mostrar o artista num ambiente que criasse uma atmosfera “clean” e elegante. No caso dessa produção, Marina parece extremamente jovial e forte. Ela canta sempre de olho na câmera, como se conversasse com o espectador, totalmente de acordo com o verso “Meu bem, me dê sua atenção”, que encerra a canção. Ao mesmo tempo, é mostrada em sua pequenez diante da exuberância da vegetação local e também sozinha numa casa tão grande.
Portanto, o videoclipe “Gata Todo Dia” pode ser considerado uma carta de apresentação de uma artista que faz rock e manha, como ela canta. A canção foi incluída num álbum emblemático na carreira de Marina Lima, pois traz outros sucessos, como “Charme do Mundo”, “Avenida Brasil” e “O Lado Quente do Ser”, que fez muito sucesso na interpretação de Maria Bethânia e graças aos versos que combinam com perfeição com a própria compositora, aqui em parceria com o irmão poeta e filósofo Antonio Cícero: “Eu gosto de ser mulher / Sonhar arder de amor / Desde que sou uma menina / De ser feliz ou sofrer / Com quem eu faça calor / Esse querer me ilumina”.
*Brazucas é uma seção quinzenal, no formato seriado, a respeito da história da produção brasileira de videoclipes e é escrita por Guilherme Bryan, 36 anos, jornalista, doutor em Meios e Processos Audiovisuais pela ECA-USP, colunista de videoclipes e música do Yahoo!Brasil, responsável pela cobertura cultural do portal Rede Brasil Atual, colaborador fixo da Revista da Livraria Cultura e professor de Rádio e TV da Universidade Bandeirantes (Uniban). Autor do livro “Quem tem um sonho não dança – cultura jovem brasileira nos anos 80?.


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