Animação + realidade
Uma mistura que o videoclipe utiliza como ninguém. Embarque agora nessa viagem cheia de narrativas, experiências e muito, muito mais
Taís Lobo
Os anos oitenta foram tão paradigmáticos que converteram até os grandes estúdios de produção em massa. Refiro-me às grandes produções clássico-narrativas hollywoodianas. A década e suas inovações tecnológicas mexeram tanto com o imaginário de quem trabalhava com cinema que a nostalgia se materializou cinematograficamente, através desses novos aparatos e da intertextualidade.
Explicando: em 1976, ano conhecido como o boom eletrônico asiático, os japoneses lançaram a fita VHS, cujas imagens poderiam ser capturadas de forma magnética, em suportes promissoramente democratizáveis. Essa nova tecnologia se consolidou fortemente nos anos 80, com sua apropriação pelos meios de comunicação televisivos e por sua massificação, através do vídeo K7 caseiro, do seu uso por artistas de vanguarda, como videomakers e derivações, pela publicidade… E, claro, foi também o boom do videoclipe, em especial o da MTV. As experimentações em vídeo eram, literalmente, mais palpáveis. Novas mídias, novas formas de expressão audiovisual. Tudo indicava que o grande cinema morreria. Não faltaram filmes, então, que homenageassem o velho e clássico cinema, aquele cinema fortemente de gênero dos anos 40 e 50. Era uma homenagem paródica, à vez que respeitosa, e também apontava para experimentações tecnológicas, de maneira que podemos assistir a um filme noir cujos protagonistas são Eddie, interpretado por Bob Hoskins, e o desenho animado de um coelho, chamado Roger Rabbit. Foi dentro desse contexto que, no ano de 1988, filmou-se Uma Cilada para Roger Rabbit, no qual Mickey e seu rival industrial, Pernalonga, Patolino e Pato Donald contracenam juntos.
Se um modelo tão clássico como cinema de Hollywood se apropriou de inovações tecnológicas, fusionando-as sutilmente, imagine as produções que propiciam e convidam esse tipo de experimentação. Por isso o videoclipe se consolida nos anos 80. Foi essa mesma revolução que possibilitou a gravação do videoclipe da música Sledgehammer, de Peter Gabriel, o primeiro que misturou “imagens reais” com animação, em 1986. Essa mesma técnica de animação por stop motion, foi utilizada pelo recente videoclipe de Michel Gondry, The Hardest Button to Button, da banda The White Stripes.
Além disso, Michel Gondry, em Walikie Talkie Man, mistura realidade com animação, também em stop motion, através do uso de linhas de lã.
Ainda nos anos 80, o A-ha lança Take On Me, cujo videoclipe possui uma narrativa baseada na letra da música, construindo a fantástica e literal imersão de uma personagem feminina para dentro da HQ que lia – onde o protagonista era o vocalista do A-ha. Daí para frente, ora viram desenhos P&B de quadrinhos, sempre em movimento, ora voltam a ser reais, e ora quadrinhos e realidade contracenam, mesclando o fundo de um com o personagem de outro, e vice-versa.
Assim como A-ha, e para além do uso da animação com justificativas rítmicas, a fusão dessa técnica com o registro de objetos reais, corrobora, também, nas construções sinestésicas, imaginativas, pueris, psicodélicas, oníricas e/ou lúdicas, traços típicos do videoclipe, aumentando as possibilidades de enunciação e de expressão puramente. É assim que, dentro do panorama narrativo de Roger Rabbit e utilizando-se de desenhos animados, se encontram clipes como os de Jack Johnson, Upside Down, e de Lilly Allen e Mark Ronson, Oh My God, cujas imagens dos desenhos animados interagem com os personagens reais através da “encenação simultânea” e das regras da montagem clássica, tipicamente cinematográficas. Aliás, em Oh My God, o desenho animado de Lilly Allen e a introdução dela em cena é uma nítida referência à seqüência de apresentação de Jessica Rabbit, a ruiva peituda, mulher de Roger Rabbit, com direito a encenações idênticas e a beijinhos voadores.
Há também o clipe de D.A.N.C.E, de Justice, que utiliza desenhos animados nas camisetas da dupla eletrônica, só que, desta vez, sem nenhum fim clássico-narrativo.
Com o surgimento da técnica de animação em 3D, desenhos e humanos puderam se aproximar mais, interagindo de forma ainda mais realista. Não à toa que o próprio Moby possui, pelo menos, dois videoclipes desse tipo…
… E que o Blur – que, assim como Moby, utiliza personagens graciosos e pequenos, por vezes, marginalizados e desdenhados no agitado entorno urbano por onde transitam – o Air, a banda sul africana The Parlotones e o Chemical Brothers também o tenham feito:
O mais interessante, aqui, é que todos esse clipes em 3D, com exceção um pouco de The Salmon Dance, se voltam para uma narratividade mais clássica, em oposição à simples referência a uma nova linguagem audiovisual. Dentro desse viés, Hunter, da música de Björk, talvez esteja mais próximo de uma abordagem menos narrativa, ainda que o espectador possa fazer associações entre as imagens, as do rosto de Björk sendo invadido por uma animação tridimensional que a emoldura como um urso, e a letra da música.
Há também quem ainda misture inúmeras técnicas, dentre elas a animação tridimensional, como é o caso de Amparanoia, projeto da cantora espanhola Amparo.
No Brasil não são poucos os casos de fusão de animação com realidade. O novo clipe de A Lhe Esperar, dos Paralamas do Sucesso, é um exemplo recente desse emprego de técnicas de animação na construção da linguagem do videoclipe. Há também Os Cegos do Castelo, dos Titãs, cuja mescla entre diversas técnicas pode até ser questionada, mas o fato é que animação e imagens reais coexistem.
Projeto elaboradíssimo e muito bem pensado foi o do videoclipe Bossa Nostra, do Nação Zumbi, que empregou uma série de técnicas de animação; além de ter usado a narratividade justaposta à exibição de imagens com outras finalidades que não as associativas de causa e efeito.
Não faltam nem faltarão exemplos. A fusão de linguagens e de expressões audiovisuais sempre terá espaço no campo do videoclipe, que, por excelência, é uma das mídias que mais propicia a experimentação de novas (e velhas!) tecnologias.


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