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BRAZUCAS: Ritchie no misto de suspense e ficção científica “Casanova”

21 abril 2012 178 views Comente primeiro

Guilherme Bryan, especial para o Clipestesia*

Em 1983, um cantor pop, nascido no sul da Inglaterra, e radicado no Brasil há mais de dez anos, tornava-se a nova sensação da música brasileira. Emplacando nas rádios e na televisão praticamente todas as faixas de seu primeiro álbum, Richard David Court, ou simplesmente Ritchie, provava que não era apenas o compositor e intérprete de Menina Veneno.

No disco “Vôo de Coração”, havia outras ótimas canções, caso de Casanova, que foi escolhida para ser o tema de abertura da telenovela “Champagne”, da TV Globo, e recebeu um videoclipe no “Fantástico”, que misturava suspense com ficção científica, além, é claro, dos “efeitos” que os diretores do programa dominical da mesma emissora adoravam utilizar e que se tornaram marcas características das produções daquele período.

É interessante observar como o videoclipe todo trabalha com os elementos que remetem oras ao artista, oras à letra da canção. A primeira imagem mostra, em meio ao ruído de trovões, uma mulher soprando fogo (depois veremos a descobrir tratar-se da tal rainha da letra da música), sobreposta a fachada de um pub inglês estilizado, remetendo à origem de Ritchie, muito provavelmente o mais brasileiro de todos os ingleses.

A câmera penetra no tal pub e, um pouco inclinada, mostra Ritchie, de smoking, em meio a cartas de baralho e muita fumaça de gelo seco. O que nos faz acreditar que o diretor desse videoclipe possa ser Eid Walesko, que trabalhou com o artista em outras produções e era um dos nomes mais requisitados do “Fantástico” na época. Aparecem vitrais com desenhos de cavaleiros pintados e é feito um rápido movimento por entre uma série de garrafas enfileiradas e iluminadas com uma forte luz amarela. Temos aqui, portanto, duas referências à letra da canção – “Eu fico mesmo de smoking”, “Cavalos alados e seus cavaleiros brincam ao luar”.

Com jogos de sombras, escuta-se apenas o ruído típico dos bares. Em meio a muita fumaça, Ritchie é despertado pelos acordes iniciais da canção, depois de 30 segundos de já iniciado o videoclipe, e deixa o local. Ele veste um sobretudo bege, típico dos investigadores, e curiosamente, apesar dos ruídos da chuva, quando deixa o bar, não chove mais. Porém, nessa sequência, o mais interessante é a maneira como o diretor se vale do reflexo do cantor em vidros quebrados e poças d’água.

Novamente, a canção é interrompida com Ritchie quase sendo atropelado, o que aumenta o tom de tensão, típica do thriller policial, com o qual brinca o videoclipe. O cantor se joga, então, contra uma janela de vidro e cai num chão quadriculado em preto e branco, como um tabuleiro de xadrez. É quando se escuta a voz dele cantando e ele, m meio a grandes peças do jogo, e a imagem da rainha, interpretada por Letícia Payola. Os dois começam a dançar numa espécie de jogo de sedução. Totalmente de acordo com os primeiros versos compostos em parceria com o poeta Bernardo Vilhena: “Boa noite, Rainha, como vai?” / Sou seu coringa, o seu ás / Luvas de couro / Meias de seda brilham ao luar / Eu fico mesmo de smoking / Vamos dançar”.

A iluminação, realizada por Edmundo Tibúrcio, também trabalha e contrasta com as duas cores principais que aparecem na letra da música – o cinza azulado das meias de seda que brilham ao luar, que se percebe tanto nos figurinos de Ritchie e da Rainha, como nas imagens da rua deserta durante a noite e do chão-tabuleiro; e o amarelo forte do verso “Eu venho como fogo incendiar sua cama”.

A dança de Ritchie e da Rainha foi devidamente coreografada pela profissional Diana Tomasetig. Ela é muito bem reforçada pelos movimentos de câmera, que também parece dançar de acordo com a música, inclusive valendo-se de movimentos mais lentos e até congelados, a fim de aumentar o grau de dramaticidade. Aparece também o corpo de baile da TV Globo, algo extremamente usual nas produções do “Fantástico”, usando capas pretas e colants brancos, simbolizando os aventureiros que entram em cena, de acordo com a letra.

O videoclipe termina com Ritchie indo embora pela rua deserta e caindo atrás dele um lenço cor-de-rosa da Rainha. Porém, a letra da canção indica uma possível continuidade: “Cavalos alados e seus cavaleiros brincam ao luar / Tomando de assalto o dia que vai chegar / Boa noite, até já!”.

Há muitos efeitos que, em pouco tempo, se tornaram clichês em videoclipes, como o uso de cristais e água, sombras, distorções e fumaça, e câmera inclinada, entre outros. Porém, além de representar muito bem aquele período da produção de videoclipes do “Fantástico”, Casanova prova a força que Ritchie possuía naquele período da explosão internacional da new wave.

Com uma sonoridade que se valia bastante da presença dos sintetizadores, uma letra extremamente visual e uma força de interpretação única, essa é apenas mais uma das ótimas faixas do álbum “Vôo do Coração”, que merece sair do esquecimento e ser merecidamente reconhecido como um dos grandes trabalhos da música pop brasileira da década de 1980.  Uma curiosidade é que essa canção conta com a guitarra de Lulu Santos e a bateria de Lobão.

*Brazucas é uma seção quinzenal, no formato seriado, a respeito da história da produção brasileira de videoclipes e é escrita por Guilherme Bryan, 36 anos, jornalista, doutor em Meios e Processos Audiovisuais pela ECA-USP, colunista de videoclipes e música do Yahoo!Brasil, responsável pela cobertura cultural do portal Rede Brasil Atual, colaborador fixo da Revista da Livraria Cultura e professor de Rádio e TV da Universidade Bandeirantes (Uniban). Autor do livro “Quem tem um sonho não dança – cultura jovem brasileira nos anos 80?.

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