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Brazucas: Julio e sua gang trouxeram colorido ao rock nacional

18 fevereiro 2012 34 views Comente primeiro

Guilherme Bryan, especial para o Clipestesia*

Uma das figuras mais aclamadas do rock brasileiro no início da década de 1980, e talvez hoje injustamente pouco lembradas, é Júlio Barroso, o líder da banda Gang 90 & As Absurdettes, que trouxe influências coloridas da new wave internacional e, de modo revolucionário, as misturou com ritmos latino-americanos. Era tudo muito inovador para uma época em que o rock ainda era visto como algo marginal na música brasileira.

Quem assistiu a apresentação da música Perdidos na Selva, durante as eliminatórias do festival MPB-Shell, realizado em 1981, pela TV Globo, garante que nunca viu nada tão impactante. Logo essa canção seria lançada num compacto e, em 1983, estaria no LP Essa Tal de Gang 90 & As Absurdettes.

Entre outras canções, o álbum continha Nosso Louco Amor, parceria de Julio Barroso e Herman Torres, que foi parar na abertura da telenovela Louco Amor, da TV Globo; e a que nos interessa aqui, Telefone, composta por Julio Barroso e marcada pelos vocais dele, contrapostos aos das tais “absurdettesAlice Pink Pank, Lonita Renaux e May East. Na banda, também havia feras como o baterista Gigante Brazil, o guitarrista Wander Taffo, o tecladista Luiz Paulo Simas e o baixista Otávio Fialho.

Ao invés de ser uma transposição literal da letra em imagens, o videoclipe Telefone, que hoje pode soar datado, se transformou num importante registro visual de época, em função de se valer de alguns recursos audiovisuais até então considerados modernos. É o caso do uso indiscriminado de chroma-keys coloridos, com as imagens dos cantores sobrepostas; ao recorte feito nas imagens, de modo que elas aparecem apenas num espaço reduzido e o restante da tela preto. Há também muitos contrastes proporcionados entre a utilização de sombras e painéis cheios de cores num mesmo plano. Isso se percebe principalmente na imagem em que a sombra de um corpo está entre duas paredes, sendo que uma delas possui um círculo branco, criando quase uma sensação etérea.

Nada mais de acordo com a letra surrealista e a sonoridade dos sintetizadores do que essas imagens coloridas e consideradas modernas para a época, marcadas por uma edição esperta e envolvente. “Sua voz está tão longe ao telefone / Fale alto, mesmo grite, não se importe / Pra quem ama a distância não é lance / Nossa onda de amor não há quem corte / Oh meu amor / Isso é amor“, canta Julio Barroso, acompanhado pelas backing vocals, algo que, de certo modo, aproxima a Gang 90 da Blitz. Só que, enquanto a primeira é uma banda paulista e carrega sinais da grande metrópole, a segunda é tipicamente carioca. Um detalhe interessante é observar a presença da vocalista Taciana Barros, que não fazia parte da gravação original da canção e foi esposa de Julio Barroso.

O diretor dessa proeza é o italiano Billy Bond, radicado primeiro na Argentina e depois no Brasil, e que, na década de 1970, havia liderado as bandas de rock argentina La Pesada del Rock and Roll, e brasileira Joelho de Porco. Ele entrou nos anos 1980 como um videomaker importante e inovador, comandando programas de videoclipes na televisão, caso do BB Video Clipe, fora do esquema do Fantástico, da TV Globo. Além de exibir produções internacionais, o próprio Billy Bond realizava para eles produções próprias com artistas do momento e muitas vezes registradas rapidamente no jardim da própria emissora.

Telefone, portanto, é um símbolo da produção audiovisual dos anos 1980, no Brasil, tanto em função da própria canção de uma banda que desbravava os primeiros caminhos para o novo rock brasileiro, como pela direção de um músico que vislumbrava no videoclipe um importante espaço de experimentação e liberdade de criação audiovisual, em perfeita sintonia com o que se realizava fora do país. Desse modo, se hoje, videoclipes como esse são considerados ultrapassados, eles guardam em si as marcas de uma época e foram fundamentais para formar uma geração que viria a trabalhar ativamente anos depois, ao desenvolver o que ficou conhecido como “produtoras alternativas de video”, das quais fizeram parte, entre outros, Tadeu Jungle, Marcelo Tás e Fernando Meirelles.

A canção foi regravada em 1999, pela banda paulistana Ira!, no álbum Isso é Amor, e contou com a participação especial das cantoras Érika Martins, da banda baiana Penélope; e Fernanda Takai, da banda mineira Pato Fu.

*Brazucas é uma seção quinzenal, no formato seriado, a respeito da história da produção brasileira de videoclipes e é escrita por Guilherme Bryan, 36 anos, jornalista, doutor em Meios e Processos Audiovisuais pela ECA-USP, colunista de videoclipes e música do Yahoo!Brasil, responsável pela cobertura cultural do portal Rede Brasil Atual, colaborador fixo da Revista da Livraria Cultura e professor de Rádio e TV da Universidade Bandeirantes (Uniban). Autor do livro “Quem tem um sonho não dança – cultura jovem brasileira nos anos 80?.

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