Brazucas apresenta “Você Não Soube Me Amar”: quando a música brasileira parou numa Blitz

Guilherme Bryan, especial para o Clipestesia*
Em janeiro de 1982, cinco rapazes e duas garotas cantavam, numa lona armada na praia do Arpoador, no Rio de Janeiro, um rock animado e contagiante, com uma letra que mais parecia uma história em quadrinhos e tratava do encontro amoroso de um garoto e uma garota, em meio à batata frita, chope e muita falação. A tal lona era o Circo Voador, a banda era a Blitz e a canção Você Não Soube Me Amar, que abriu as portas da indústria fonográfica ao então novo rock brasileiro que surgia e conseguia uma projeção junto ao público até então inimaginável.
Evandro Mesquita (guitarra e voz), Fernanda Abreu (backing vocal), Márcia Bulcão (backing vocal), Ricardo Barreto (guitarra), Antonio Pedro (baixo), William Forghieri (teclados) e Lobão (bateria), logo substituído por Juba, formavam uma verdadeira trupe musical que conquistou os jovens, mas também os mais velhos e as crianças, e foram parar até em comerciais e álbuns de figurinhas.
As rádios já estavam dominadas, mas faltava conquistar também a televisão. E a Blitz ocupou os três principais espaços da época: as trilhas sonoras de telenovela, indo parar no disco nacional de “Sol de Verão”; o programa “Cassino do Chacrinha”, exibido pela TV Globo nas tardes de sábado, com recordes absolutos de audiência nesse dia da semana e horário até hoje; e os então iniciantes videoclipes do “Fantástico”.
A imagem apenas de uma das pernas de um rapaz descendo uma escada e chutando uma lata, em meio a muita fumaça, o ruído do objeto, os primeiros acordes da canção e uma locução dizendo: “O sucesso da semana. Um conjunto jovem com muito ritmo e bom-humor”. Assim começava o videoclipe dirigido por Eid Walesko, que se tornaria uma referência nesse tipo de produção na TV Globo e, anos mais tarde, seria reconhecido como criador de uma estética a ser evitada. Ou seja, a estética da câmera inclinada e muito gelo seco.
Porém, nesse momento, esse tipo de realização era uma novidade tão grande, que parecia ser impossível resistir ao apelo musical e visual da banda carioca. Ainda mais quando a câmera mostrava Evandro Mesquita de calça jeans, sem camisa, com os braços cruzados e cantando os primeiros versos da canção: “Sabe essas noites em que você sai caminhando sozinho / De madrugada / Com a mão no bolso”. Em seguida, aparece um cenário formado por vários elementos capazes de contar a história da canção. Ou seja, um orelhão, uma mesa de sinuca e algumas mesas de madeira, rodeadas por cadeiras.
Com direito a imagens sobrepostas, aparecem as duas backing vocals Fernanda Abreu e Márcia Bulcão cantando, com a maquiagem carregada e uma estética próxima a denominada “new wave”, que trazia mais brilho ao pop internacional e revelou artistas como B-52’s, Blondie e Talking Heads. A adesão a esse movimento internacional se confirma pelo cabelo espetado e cheio de gel de Fernanda Abreu, pelos vestidos brilhosos das duas garotas, e pela roupa colorida e os óculos escuros de Evandro Mesquita.
Ricardo Barreto, William Forghieri e Antonio Pedro aparecem vestidos de garçons arrumando uma das mesas e ajudando na preparação da ambientação da narrativa relatada na letra da canção. Com vários cortes secos, os brotos – expressão herdada das origens do rock brasileiro, com a Jovem Guarda – Fernanda Abreu e Márcia Bulcão aparecem como se fossem miragens, para alegria de Evandro Mesquita. Elas descem a escada do bar, que já se encontra lotado. A partir daí, o que se vê é simplesmente a transposição literal do que se escuta em imagens, com direito a inclusão de alguns ruídos ambiente. É o caso da seequência, por exemplo, dos canecos de chopp deslizando em cima de um balcão.
Um dos detalhes que mais chamaram atenção na época foi a inserção de palavras no meio da tela, como acontece nas histórias em quadrinhos. Nesse caso, elas não passam do “blá blá blá blá blá blá” e “ti ti ti ti ti ti ti ti”. Mas, mesmo assim, trata-se de um recurso que, a partir de então, se tornaria bastante comum nas produções voltadas ao público jovem, sendo levado ao extremo da criatividade no marcante seriado da mesma TV Globo, “Armação Ilimitada”, que tinha a esposa de Evandro Mesquita, Patrycia Travassos, como um dos autores.
A banda também aparecerá tocando num palco improvisado do bar, demonstrando a força performática que possuía. Porém, soa estranho o fato de que os figurantes contratados pela TV Globo dancem como se estivessem de volta aos tempos da Jovem Guarda e da juventude transviada. Essa aparente comparação e confusão com o início do rock brasileiro parece ainda mais evidente, quando se percebe que, em diferentes momentos desse videoclipe, aparecem motocicletas, o que se tornaria algo extremamente utilizado nessas produções do “Fantástico”.
Não importa. O fato é que estavam escancaradas as portas da mídia e da indústria fonográfica para a entrada consagradora do que o jornalista Arthur Dapieve denominou como sendo o BRock, em associação aos postos de gasolina BR, num momento em que o mundo parecia se recuperar de duas profundas crises do petróleo que abalara as economias na década anterior. E a Blitz tornava-se o primeiro grande fenômeno desse novo momento da música brasileira, vendendo rapidamente mais de 100 mil cópias do primeiro LP, “As Aventuras da Blitz”, que comprovava que tão importante quanto a música, era o visual, para esses jovens artistas, tanto que o álbum é reconhecido até hoje também em função do ótimo design gráfico realizado por Gringo Cardia e Luiz Stein, do estúdio A Bela Arte.
Iniciamos assim mais um ano da seção “Brazucas”, do Clipestesia, que pretende, em 2012, retratar, de quinze em quinze dias, produções que marcaram a história do rock brasileiro, em ordem cronológica.
*Brazucas é uma seção quinzenal, no formato seriado, a respeito da história da produção brasileira de videoclipes e é escrita por Guilherme Bryan, 36 anos, jornalista, doutor em Meios e Processos Audiovisuais pela ECA-USP, colunista de videoclipes e música do Yahoo!Brasil, responsável pela cobertura cultural do portal Rede Brasil Atual, colaborador fixo da Revista da Livraria Cultura e professor de Rádio e TV da Universidade Bandeirantes (Uniban). Autor do livro “Quem tem um sonho não dança – cultura jovem brasileira nos anos 80?.



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