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Clipe e cia: “S&M” ou por que é tão fácil acusar artistas pop de copiarem suas obras de outros?

22 fevereiro 2011 626 views 2 Comentarios

Passei um tempinho a mais entre a minha última coluna, em que falei do clipe Six Days, do DJ Shadow, e essa aqui. É que estava observando os ventos e as bússolas desta nossa louca cultura pop. E daí que me deparei com uma série de acusações ao longo dessas quase três semanas. Todas ligadas à palavra “cópia”. Primeiro, foi no lançamento do clipe S&M, da Rihanna – ela era “acusada” de copiar a estética do fotógrafo e diretor de arte David LaChapelle (dá uma olhada nas imagens dele aqui). Depois na divulgação da música Born This Way, da Lady Gaga, em que ela foi mundialmente apontada por ter plagiado a faixa Express Yourself, de Madonna – até eu cheguei a tuitar um xingamento contra a Gaga, vejam só!

Antes de qualquer coisa, assista o clipe S&M, da Rihanna e a gente inicia o nosso papo.

Essa matéria mostra frame-a-frame alguns indicativos do tal plágio da Rihanna.

Na verdade, esta coluna aqui não é para evidenciar que Rihanna copiou o David LaChapelle, a Lady Gaga imitou a Madonna ou algo do tipo. Mas destacar porque é tão fácil cada um de nós acusar um artista pop de copiar/plagiar outro. O “teto de vidro” do artista de música pop é muito mais frágil. Atire uma pedra e, pronto, ele desmorona! O que estou querendo destacar é que em nosso juízo de valor sobre uma obra (música, clipe, álbum) de um artista pop está em jogo a questão do gênero musical. O pop sempre foi “o fabricado”, “o excessivamente produzido”, “o que só quer vender”. O rock, ao contrário, era “o autêntico”, “o rebelde”, “o que não se vende”, etc e tal.

Sempre achei esse argumento um tanto careta, binário, quase bipolar, porque nunca achei que as coisas podem ser divididas assim, tão bruscamente: preto/branco, homem/mulher, pop/rock. Olhar os gêneros musicais dessa forma é tirar a sua dinâmica, a sua complexidade. É possível enxergar que pode haver “rebeldia no pop” ou “rock que só quer vender”. Estamos num mundo em que o capital perpassa as indústrias da cultura (mercado de música, cinema, televisão) e é preciso entender que toda expressão que se utiliza dos aparatos midiáticos (seja na sua produção até o seu consumo) é produto e obedece ao que podemos chamar de uma estética da mercadoria.

Não estou aqui sendo fatalista e dizendo que todas as expressões da cultura midiática são ruins porque obedecem a esta estética da mercadoria. Longe disso. Quero, ao contrário, mostrar que é esse consenso em torno do que se convencionou chamar de artista pop (e todo lastro histórico de filiações comerciais, mercantilistas, etc) que nos faz acusar Rihanna e Lady Gaga de “copiadoras”. Um parêntesis: já notou como a acusação de plágio/cópia é bem mais comum entre artistas do pop? Por que não “acusam” inúmeras bandas contemporâneas de rock de “copiarem” os Beatles, os Rolling Stones, o The Doors? Exemplos não faltariam. Mas é que o rock vem “acoplado” a um estigma de autenticidade, uma construção histórica de um lugar legitimado que é preciso, inclusive, se criar uma nomenclatura como “happy rock” (essa que classifica o rock/colorido do Restart) como um espécie de “rock mais pop”, “rock menos rock”, entende?

E aí seguimos afirmando que Rihanna copiou David LaChapelle no seu clipe S&M porque estão lá as cores, a estética publicitária, meio plastificada que consagrou o diretor de arte. Ou que Lady Gaga imitou Madonna porque o andamento e a poética de Born This Way são análogos a Express Yourself. Mas quero colocar uma outra questão, para além do embate entre gêneros musicais. A questão da persona que copia.  Notemos que taxamos de “copiadores” artistas novatos. Rihanna, 23 anos. Lady Gaga, apenas um disco e meio (“The Fame” e “The Fame Monster”). Isso tem a ver com o lugar que elas ocupam na cultura midiática. São artistas que passam, dia-a-dia, a “prova” de que merecem estar neste espaço de criação e observação mediado. Se hoje, Madonna é um “modelo” de cópia para Lady Gaga, saiba que ela também já foi acusada de copiar outros artistas – ou você não lembra do filho do fotógrafo francês Guy Bourdin incitando que a artista teria “roubado” planos de seu pai no clipe Hollywood? Se não lembra, leia aqui.

Mas, onde quero chegar com essa discussão?

Acho que constatar que artistas do pop sempre serão taxados de copiadores/plagiadores mesmo que adoremos eles. E que, mesmo nós, em momentos de ímpeto e fúria, faremos tais acusações. O fato é que o pop é o terreno dos afetos, das paixões, das insanidades. Atualmente, para não ficar cometendo injustiça com um artista e me arrepender depois, tento achar uma verdade naquele momento que indique qual o posicionamento de mercado/de mídia que aquele artista quer assumir. Por exemplo, lembro como a performance da Lady Gaga, em Born This Way, no Grammy, foi criticada por “não ter nada demais”. Achei o contrário. Para mim, Gaga vir para o palco, sem pirotecnia, roupa de carne, seios explodindo, simulando sangue é que foi novidade. E que novidade! E, assim, nua de aparatos, Gaga canta bem, tem presença de palco e verdade em cena. É isso que importa para um artista. Do pop ou do rock.

Vamos ver Gaga de novo saindo do ovo?


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* THIAGO SOARES é jornalista, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e autor do livro “Videoclipe – O Elogio da Desarmonia” (2004).

Twitter: @thikos

E-mail: thikos@gmail.com

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2 Comentários »

  • Thamiris disse:

    Na verdade, as acusações de plágio no rock também são muito comuns. Uma das mais faladas é da influência além da conta dos Beatles no trabalho do Oasis, ultimamente o Coldplay tem sido atacado por várias acusações de plágio, há alguns anos os Red Hot Chili Peppers também tiveram um problema com a música Dani California.
    Mas existe uma diferença entre o que você está falando e o que o Oasis fazia, por exemplo. Noel Gallagher nunca escondeu a devoção a John Lennon e chega a iniciar a música Don’t Look Back in Anger com as primeiras notas de Imagine.
    Acho que a diferença que você coloca entre o pop e o rock é o que se faz com essa influência. Lady GaGa recicla uma estética anterior para que ela continue vendável, é como a lógica dos remakes de filmes e novelas antigos, e para não ficar igual, se veste de carne.
    Quanto ao rock, é um gênero caretíssimo, fechado, é como uma religião, os conceitos mudam com o tempo, mas existe uma tradição a ser seguida, o que leva a repetição em alguns momentos. Se tudo extremamente parecido fosse considerado plágio no rock, nem metade das bandas existiriam, elas se parecem até demais.
    Então qual é a diferença? A tradição regente do pop é o capital que ele gera, enquanto a tradição regente do rock é a originalidade.
    A grande questão deste debate é onde está a fronteira entre um e outro.

  • Leonardo disse:

    O Pop traz ao grande público o que já existe e dá aquele empurrão pra tornar parte do dia-a-dia, das discussões ou um ser um marco que associamos ao artista, sendo feito de forma inteligente. Copiar sem conteúdo,de uma forma vazia no conceito, no conteúdo da idéia fica forçado e sai com má fama ainda! Sim, um artista pode fazer uma apresentação sem pirotecnia ou figurino marcante, apenas mostrando sua música, seu som ou sua dança. Mas a verdade proposta tem que ter clareza e a empatia do público para curtir o momento junto. As vezes dá certo, as vezes só complementa o evento.

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